Uma das coincidencias da minha vida fez com que apenas um dia separa duas datas significativas para mim. Mais uma vez, este ano, estas duas datas fizeram a ponte entre 28 anos e duas gerações. Esta diferença faz-me olhar para o meu passado e para o futuro da minha prole e partilhar algumas idéias, que para muitos podem evocar algumas lembranças que fazem partem do imaginário comum da minha geração, mesmo que nem todos as tenhamos vivido da mesma forma, e partilhar alguns pensamentos sobre as capacidades que a nova geração, tal como as que a precederam, precisa de aprender e a forma como vou utilizando este hobby para as transmitir.

Por incrivel que pareça a quem me conhece, a minha imersão nos jogos de mesa só começou bem tarde na minha vida, tendo passado a minha juventude a conhecer quanto muito os jogos tradicionais portugueses, o jogo da malha, a bisca, o dominó, passando pelo não-jogo que é o xadrêz, aos jogos de supermercado tipo Monopólio, Risco, Petroleiros, etc, que já existiam à muito. Quando dono de um ZX Spectrum, descobri o gosto pelos wargames no computador e a minha surpresa em descobrir com alguma pesquisa que os mesmos eram muitas vezes adaptações ou baseados em jogos de tabuleiro que de vez em quando nalguma revista inglesa ou francesa descobria um anúncio aos mesmos. Isto intrigava-me. Seria possivel jogar este tipo de jogos contra oponentes humanos, sem ser necessário simplesmente descobrir a forma de derrotar a pseudo-inteligência artificial que este jogos tinham no Spectrum? Um dia descobri a revista francesa Vae Victis, que tratava de jogos de mesa e de tabuleiro, e aquilo ficou-me na memória. Uns anos mais tarde depois de ler uma novela de ficção cíentifica sobre pilotos de semi-robots gigantes descobri que essa série de novelas se baseava num jogo de tabuleiro. Depois de “pescar” um pouco no incipiente acesso à Internet pré Windows 95 que tinha em casa, descobri esse jogo: BattleTech. Passados uns meses lá consegui convencer um amigo a acompanhar-me a descobrir uma loja em Lisboa onde se podia comprar e mesmo encomendar expansões e miniaturas para o mesmo. A visita a essa loja periodicamente fez-me entrar em contacto com pessoas que jogavam outros jogos, coisas como RPG’s, wargames de mesa com terrenos que pareciam cenários tirados das mesas de miniaturas de comboios, jogos de cartas coleccionáveis, jogos de tabuleiro abstractos, enfim, um sem fim de actividades lúdicas que na minha juventude não tinha sequer imaginado, sem IA, sem ser em frente a um ecrân, com pessoas de carne e osso como oponentes. Pelo caminho cruzei-me ferrazmente com os jogos de vídeo e conheci esse lado das actualmente mais conhecidas actividades lúdicas dos nossos dias. Com o tempo foi a interactividade pessoal que os jogos de mesa e de tabuleiro promoviam que me fez desinteressar cada vez mais dos jogos no écrân.

Fast Forward alguns anos e após a travessia do deserto lúdico que durou alguns anos, e depois de retornar aos jogos, o meu miúdo começou a ganhar algum gosto por estes jogos que o pai jogava. Ao olhar para ele vejo a possibilidade de o apresentar desde já a um mundo onde ele já está à partida municiado (de tanto já os jogar) com uma capacidade de jogar jogos de tabuleiro que quase o coloca num nicho comparado com os outros miúdos da sua idade. Mas para fugir ao ostracismo que essa posição inevitavelmente o iria colocar, ele agarra-se aos jogos de video que os outros conhecem exclusivamente, e não o impeço de forma alguma. Seria idiotice da minha parte castrá-lo socialmente, pois é nos jogos Onofre (aqueles que usam um botão de On/Off – lol) que existe um patamar comum para esta geração, o saber a que nível é que o outro chegou, como passar o monstro A ou B, que recompensa é que existe quando se entra na caverna da direita, etc, etc. Mas tem um pequeno senão a maioria destes jogos: são quase todos jogados em solitário, e tal como a maioria da minha geração vai acabar, espero eu, por aprender que estes jogos lhes falta algo, que fez com que muitos de nós procurassem formas de entretenimento que de alguma forma nos permitam sociabilizar, nem que seja em jogos online em que é possivel interagir com outros jogadores humanos, ou, como eu, em jogos de tabuleiro.

Mas o que é que a nova geração pode aprender com os jogos de tabuleiro que os jogos de vídeo não ensinam tão facilmente? Quanto a mim, uma das coisas mais importantes é que aprendem a socializar e a divertir-se, com os outros parceiros de jogo, e consequentemente aprende duas coisas importantes: a ganhar e a perder. Estas duas últimas vertentes são muito importantes, pois um jogo tem de ser jogado para ganhar, não exista qualquer dúvida quanto isso. Mas o ganhar implica saber ganhar, e não falo das regras que têm de se aprender para saber ganhar um jogo. Refiro-me ao graciosamente saber vencer. Não olhar para os outros com superioridade, saber analisar porque é que ganhou e explicar aos outros quais os passos que podem dar para também vencerem no jogo em causa. Mas tal como é necessário aprender a ganhar, também é necessário aprender a perder, de preferencia graciosamente. Não amuar, não se irritar pelo facto de perder, não se por a choramingar mal se senta à mesa ou mal um jogador adversário faz um movimento que, nem que seja ao de leve, entende como um ataque à sua posição no jogo, mas aprender a aceitar e reavaliar a sua posição e a analisar o que o fez perder. Se foram os outros que reconheceram melhor as regras do jogo, e o que poderá fazer para melhorar para a próxima vez. A sociabilidade, a diversão, o ganhar e o perder, vão ser capacidades que ele vai ter de usar o resto da vida (se não der em ermita) e os jogos de tabuleiro podem e servem de fundações que lhe permitem apreender e desenvolver estas muitas vezes dificeis capacidades à mesa com um jogo e divertindo-se ao mesmo tempo enquanto as aprende. Não é só a matemática, o conhecimento geográfico, histórico, etc, que se transmite com um jogo mas tal como já expliquei os jogos de tabuleiro servem muitas mais funções que mais do que estes conhecimentos, tem de ser induzidos na nova geração, cabendo-me a mim como um dos seus progenitores usar estas ferramentas que por norma não são reconhecidas como tal, como são os jogos de tabuleiro.

Por isso é que os jogos que por norma se falam por aqui são bem recebidos pela geração mais nova, porque ao contrário dos jogos de tabuleiro de massas (os ditos jogos à venda no supermercado!)  com temas chapados que exigem que se aprenda algo com eles e que vejo os pais todos contentes a comprar, não cumprem a sua função. Não educam porque gritam na própria caixa que estão ali para ensinar e os miúdos fogem a sete pés de algo que lhes grita assim.

Este artigo foi publicado originalmente no AOJ