Manuel Correia é um jovem game designer português que está a dar passos no desenho de jogos de tabuleiro. Ficam aqui alguns dos seus pensamentos decorrentes do seu processo criativo.

Este post será sobre lidar com empates em jogos de blind bidding, junto com algumas notas sobre evitar “remendos” de game design.

Na minha pesquisa por jogos do género reparei que a maioria dos designers escolhe anular os empates. Dois jogadores fazem a sua licitação e não conseguem comprar a sua carta ou realizar uma acção se tiverem “pago” o mesmo. Depois de experimentar alguns jogos com esta mecânica apercebi-me da frustração que isto pode causar. Resolvi evitar esta solução de forma a acrescentar algo de único ao jogo que estou a criar.

Dito e feito: na última versão do meu jogo os empates não se anulam.

O jogador que está nas piores condições (ou seja, com mais àgua no barco) ganha os empates. Isto ajuda os jogadores que estão em pior estado e cria uma nova possibilidade estratégica possível – deixar o barco afunda no início para o escoar mais tarde. Nos jogos de teste vi vários jogadores a escolher esta estratégia. Usavam grande parte da tripulação para garantir que conseguiam fazer mais acções que os outros, afundavam mais que todos, multiplicavam os recursos nos turnos seguintes e usavam isso para recuperar mais tarde no jogo.

As suas únicas preocupações foram pagar mais pelas acções que os outros jogadores e não se deixar afundar.

Dada a natureza do tabuleiro principal, dois barcos podem estar na mesma casa. Nesse caso quem ganha? Experimentei colocar os barcos em posições diferentes. Estão na mesma casa, mas por ordem de chegada. O barco que está mais à frente (perto da próxima casa) ganha os empates. Resolvido!

Ensinei o jogo a algumas pessoas que habitualmente não jogam e eles acharam as regras difíceis de decorar. Isso quer dizer que as regras não faziam muito sentido para eles. Mas…eu só queria dar uma hipótese a todos os jogadores mesmo em caso de empate!

Numa tentativa de simplificar estas situações e ter uma regra única para os empates voltei a olhar para os jogos que os anulam. Percebi que esta condição pode ser frustrante para os jogadores que a encontram, mas dá outra importância a cada licitação. Para além de pensar se conseguem pagar mais do que os outros cada um tem de pensar em quem poderá pagar o mesmo por aquela acção. Anular a acção nesse turno é mau para os dois porque os recursos de ambos vão ser gastos tal como se a tivessem feito. Isto vai fazer com que os jogadores se esforcem para escolher acções menos óbvias e, se os jogadores empatarem, dar uma hipótese aos jogadores que estão a perder.

Agora já percebo porque os outros designers escolheram esta solução.

Esta solução dá algum tempo extra aos jogadores que estão a perder, acrescenta um nível de raciocínio às licitações e é mais elegante porque serve para todas as situações. Vou experimentá-la no próximo jogo de teste.

Manuel Correia

Anúncios