A Hasbro hoje em dia é dona de várias editoras que foi adquirindo, incluindo-se a Avalon Hill, a Milton Bradley, a Parker Brothers e a Wizards of the Coast. Sendo a maior empresa do mundo de jogos e brinquedos, este quase monopólio de tudo quanto aparece nas grandes superficies comerciais é a responsável pelo moldar da forma de vermos o mundo desde a mais tenra idade. Como é isto possivel? É simples, desde pequenos que a nossa geração e as que nos seguem são bombardeadas por tudo quanto venha deste monstro. Estou a falar de tudo quanto sejam brinquedos que hoje em dia não há criança no mundo ocidental e mesmo no terceiro mundo não conheça: G.I. Joe, Mr. Potato Head, My Little Pony, Pokémon, Star Wars e/ou Transformers.

Mas isto são brinquedos!!! Que raio é que isto tem a ver com os nossos jogos de tabuleiro? Muito simples. Logo no primeiro parágrafo referi uma quantas companhias de jogos de tabuleiro de que a Hasbro é dona em pleno (com todo os direitos de copyright e propriedade intelectual), e em extensão sobre um catálogo de jogos, muitos deles que se contam entre os mais excelentes que alguma vez se fizeram, mas dos quais só se dão ao trabalho de produzir sistemáticamente uns quantos, alguns de qualidade mediana ou mesmo muito baixa, como por exemplo: Axis and Allies, Candy Land, Clue (Cluedo), Diplomacy, Monopoly, Pictionary, Risk, Scrabble, Trivial Pursuit. Ou seja, produzem jogos para as massas, que é outra forma de dizer que nivelam por baixo, porque isso vende, e vende muito e dá lucros gigantescos.

O que salta à vista imediatamente nestes titulos, é que qualquer um se encontra de olhos fechados em qualquer supermercado, por cá ou no estrangeiro. E o resto dos catálogos das empresas adquiridas pela Hasbro ao longo dos anos? O que é feito de todos os jogos de tabuleiro produzidos pela Avalon Hill e pelas outras companhias durante mais de 30 anos? Rápidamente nos lembramos que a Wizards of the Coast é a dona do Magic: The Gathering, que é um fenómeno de vendas, sempre a reinventar-se. Ora é exactamente aqui que está o busilis (andava à que tempos pra meter esta palavra!!) da questão. Ou um jogo vende nas ordens dos milhões das unidades, ou a Hasbro nem se preocupa com ele. De vez em quando lá aparece uma editora disposta a comprar os direitos a algum titulo perdido dentro da base de dados da Hasbro, e alguém lá dentro lá se decide a despachar aquela tralha que está para ali a ganhar pó (temos os casos de vários jogos da Avalon Hill que têm sido reeditados a miúde por esta ou aquela editora, sendo o caso mais recente a próxima re-edição do 1830: The Game of Railroads and Robber Barons a ser produzido pela Mayfair Games). Ao que já foi ventilado na Net, o custo de fazer uma edição de um jogo de 5, 6 ou até 10 mil exemplares, não é rentável para a Hasbro. Ou o jogo em causa se vende nas ordens dos milhões de unidades ou mais vale ter a gráfica parada (que com um leque tão variado de lixo a ser empurrado para os consumidores diariamente, nunca estão paradas por muito tempo).

Quando a Hasbro comprou a Avalon Hill, ganhou o contrato de trabalho de alguns dos autores (a maioria foram despedidos sumariamente no próprio dia da aquisição), e esporádicamente decidiu dar-lhes uns milhõezinhos de dolares para ver o que é que eles conseguiam fazer. Assim de vez em quando surgiram alguns titulos que estavam nas gavetas de projectos: Star Wars: The Queen’s Gambit, Betrayal at the House on the Hill, Nexus Ops, para além de ter carimbado com o logotipo AH toda a linha de jogos Axis and Allies e derivados que adquiriu com a compra da Milton Bradley.
No caso da Avalon Hill, ao que parece alguém na Hasbro ouviu falar que existia uma companhia que fazia jogos de tabuleiro, que no passado chegava a ter vendas na ordem das centenas de milhar de unidades, e que estava a dar passos na passagem a jogos de computador de muitos desses titulos. Aqui surge o núcleo da questão, em que à data da aquisição da Avalon Hill já se estava a verificar que o mundo dos jogos de video ultrapassava em passos largos o mundo dos jogos de tabuleiro. Com um catalogo gigantesco de titulos que tinham feito furor no passado, parecia haver um potencial de jogos a ser portados para um novo médium. Parece que alguém dentro da Hasbro, se esqueceu de ver o público alvo de uns e de outros jogos. Como exemplo, um jogo como o 1830 quando portado para uma plataforma de jogos, e jogado contra uma inteligência artificial não consegue ter o apelo que um jogo de gestão de caminhos de ferro tipo Railroad Tycoon consegue ter, e a Avalon Hill que já estava a enveredar por esse caminho já o estava a descobrir. A diferença básica é que os jogos de tabuleiro são para se jogar contra adversários reais e frente-a-frente, em que o aspecto de sociabilidade pesa bastante, enquanto que, na altura – e a maioria ainda hoje em dia -, os jogos de computador tinham em vista o jogo solitário contra o PC/Consola/Whatever. Por 6 milhões de dolares esta foi uma decisão que a Hasbro nem pensou duas vezes. Pelos vistos só depois da compra é que se começou a olhar para o catálogo de jogos e a descobrir que afinal não havia ali muito para aproveitar.

Passados uns tempos começou-se a ver que a Hasbro não fazia nada para desenvolver novos jogos que não fossem com um alvo infantil ou juvenil. De vez em quando lá se decide a relançar um ou outro jogo com maior potencial e até andou algum tempo a despejar dinheiro nalgumas criações fantásticas. Mas no essencial tem-se limitado a ir vendendo de vez em quando uma ou outra licensa a pequenas editoras que produzem pequenas edições de jogos antigos (aproveitando para lhes limpar a cara), enquanto se mantém firmemente sentada em cima dos direitos de autor de tudo o resto (It’s mine! It’s mine. All mine! My precious!! Desculpem, não resisti).

Para se entender um pouco o tamanho da Hasbro fica aqui uma pequena cronologia da mesma na vertente das suas aquisições dos jogos de tabuleiro.

1923 – a Hasbro é fundada por Henry e Merril Hassenfeld (era então conhecida por Hassenfeld Brothers). De inicio negociava em restos de texteis, passando rápidamente a fabricar lápis e diversos materiais escolares. O primeiro brinquedo fabricado, foi o Mr.Potato Head nos finais dos anos 40.

1984 – Faz a aquisição da Milton Bradley adquirindo assim entre outros os jogos The Game of Life, Candy Land, Twister, Battleship e Axis and Allies. Em 1968 a Milton Bradley tinha comprado a Playskool.

1991 – A Hasbro compra a Tonka, que tinha comprado a Parker Brothers, dona do Monopólio, Cluedo, Risco e Sorry.

1998 – Dá-se a compra da Avalon Hill, com todo o seu catálogo de jogos, propriedade intelectual e stocks.

1999 – A Wizards of the Coast é comprada pela Hasbro, ganhando desta o Magic: the Gathering, o RoboRally e o Dungeons and Dragons.

No espaço de 25 anos, a Hasbro adquiriu e enfiou a estaca no núcleo de jogos de tabuleiro. É nesta altura que começam a ser notados os jogos alemães, filhos envergonhados de todos os gigantes que tombaram às mãos da Hasbro, utilizando tentativamente o vazio assim criado.

Este artigo foi publicado originalmente no TuJogas

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