O trabalho do Nobel da Física Werner Karl Heisenberg, com ao seu Princípio da Incerteza, mostra como até no mundo dos jogos de tabuleiro a imersão num assunto nos leva a mudar o próprio assunto. Assim se passa na pequena comunidade de jogadores de jogos de tabuleiro em Portugal, que aos poucos, muitos poucos mesmo, vai aumentando os seus números.

Para quem está de fora, vê simplesmente uma de duas coisas: uma cambada de adultos a agirem que nem putos, a brincarem com joguinhos de crianças, ou (e esta é uma idéia que considero bem pior pelas implicações da mesma) um conjunto de pessoal que idolatra o vicio do jogo, onde se perdem rios de dinheiro, enquanto que em casa os miúdos passam fome.

É extremamente dificil para quem está de fora não cair numa destas duas avaliações. Enquanto que na primeira se verifica um encolher de ombros, um deixa andar que mais parecem putos, um apontar de dedo como que se quem esteja a jogar um jogo de tabuleiro seja simplesmente uma aberração inofensiva da sociedade, já no segundo caso as coisas mudam de figura. Quem olha para um boardgamer e só ve o vício do jogo, é extremamente dificil de aceitar esta actividade lúdica como sendo algo inofensivo, e, pelo contrário, muito lúdico e catalisador de socialidade e dos intelectos.

Para quem está de fora é só isto que vê. No entanto de vez em quando, seja porque um amigo o convidou, seja porque se lembra com nostalgia de um jogo que conheceu em criança, seja por lhe ter chamado a atenção de um titulo que até então só conhecia em formato de videojogo, ou porque gostaria de um frente-a-frente sobre uma mesa de café, alguém dá um pequeno passo e experimenta aparecer num encontro, dos muitos que se realizam ao longo de um mês pelo país fora (vide o site AbreOJogo se quiserem conhecer alguns destes encontros). Quando isto acontece a pessoa é defrontada com um mundo por norma totalmente desconhecido até então, do qual só tinha uma vaga idéia do que o mesmo poderia ser, como um iceberg, só com uma pequena percentagem visivel. Ao que se tem visto, a reacção parece o embater do Titanic com o iceberg. São poucos os que escapam ao primeiro embate sem irem ao fundo neste mundo. E é a imersão no mundo dos jogos de tabuleiro modernos que faz com que a pessoa altere radicalmente a forma de se olhar para este mundo.

Quem assim se afunda, começa imediatamente a criar ondas de alterações que fazem com que a sua percepção, e dos que o rodeiam, sobre o mundo dos jogos de tabuleiro se altere. O vício afinal sempre existe, mas não o vicio do jogo pelo dinheiro, mas sim o desejo que se cria de conhecer novos jogos, de repetir as jogatinas, de trocar experiências e de se debater intelectualmente por cima do tampo de uma mesa, com um seu congénere humano, amante da mesma paixão, que afinal se descobre logo aquando do primeiro embate que está muito para lá dos jogos de crianças. Aliás esta é percepção que mais rapidamente se assimila, é que se está perante jogos que, enquanto muitos deles poderão ser ensinados a crianças, não têm por alvo o público mais novo, uma vez que lhes falta a maturidade para irem além das mecânicas e entrar na formulação de estratégias e naquilo a que se chama do meta-jogo, existente na maioria dos bons jogos.

E o pobre afogado tal como altera o seu conhecimento, começa pouco depois a influenciar também a própria comunidade. Passa a ser mais um com que se passa a contar periodicamente nos encontros. Passa a ser aquele que chora quando ainda se está a montar o jogo, ou o explicador dos jogos de médio porte, ou o que gosta mesmo de wargames, e com tudo isto passa a vincar também a comunidade, enriquecendo-a.

Uma última palavra a quem está de fora: experimentem dar um passo em frente para este abismo. A queda neste desfiladeiro é das coisas mais espectaculares de se sentir.

Este artigo foi publicado originalmente no TuJogas

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