Quantas vezes já ouvimos esta pergunta?

O teu Hobby é o que?

Tu jogas joguinhos?

Estás a brincar, é?

Há já alguns anos que todos os tipos de jogos me fascinam, desde que não envolvam dinheiro (a não ser o necessário para os adquirir), e desde essa altura que recebo aquele olhar de esguelha de uma data de gente, sejam familiares ou colegas de trabalho. O comentário seguinte à primeira explosão verbal, passa depois para um “Ok, se é isso que gostas…. mas que raio é isso de jogos de mesa? Dominó? Xadrêz? Monopólio?”. Tentar explicar-lhes que existe uma cultura underground que em Portugal existe à bastantes anos no reino dos jogos com miniaturas e nos anos mais recentes que se tem desenvolvidos à volta dos boardgames, é algo que também se torna difícil.

Agora para tentar dar outro nome a estes jogos, para fugir à conotação de jogo a dinheiro,batota, casino, etc, tento antes agarrar os meus interlocutores com expressões como: Eurogames, Jogos de Simulação, Jogos para Adultos – já me deixei desta também -, Boardgames, Wargames, Jogos Alemães, Ameritrash – este desisti depois de o usar 2 vezes – Jogos de Autor, Jogos de Estratégia, etc. Independentemente do nome que lhes dê, um não-conhecedor, só fica mais convencido do maluquinho que eu sou e cada vez cavo mais o meu próprio buraco.

A resposta que não posso mesmo dar: não jogo jogos de tabuleiro como pensas, mas sim jogos de modernos de mesa, que são por norma algo complexos e podem levar até várias horas a jogar. Por norma ninguém é eliminado nestes jogos, de forma que todos os jogadores estão ocupados durante todo o jogo. Por norma são jogos interact….. – e basta-me olhar para os olhos do meu interlocutor e já se foi! Já o perdi. Acabei de ganhar a alcunha do maluquinho da zona.

Conheces o Monopólio? Quando se introduz estes jogos, é necessário começar em algo familiar. Perguntar pelo Monopólio nivela o campo, e faz com que percebam que não estamos a falar do Jogo do Galo nem do Jogo da Glória, que pode envolver coisas importantes como a gestão de dinheiro de brincar, algo que ainda não está ao nível do puto de 7 anos deles/da vizinha/whatever. Também os coloca à vontade que não estamos a falar de um Quem Quer Ser Milionário, ou de um Trivial Pursuit, ou seja a cultura de cada um não é para aqui chamada. Também não é um Pictionary, e o apelo às capacidades de desenho, ou de soletrar como num Scrabble. Porreiro. Afinal temos um ponto comum. É tipo Monopólio, tem dinheiro, logo algo que cheire minimamente a questão financeira garantidamente que não é para crianças, e em antítese ao Monopólio tem um tempo máximo determinado à partida sem eliminação de jogadores.

Agora, pensa no Xadrez. Se agora lhes saltar para o outro extremo do espectro aqui a coisa muda de figura. Quase toda a gente já jogou ou viu algures – nem que tenha sido no primeiro filme do Harry Potter, bolas! Afinal percebem que de repente lhes alterei as ideias, afinal passei a falar de um jogo altamente estratégico, que é levado a sério no mundo inteiro, que se joga calmamente, em que quem está de fora não emite opiniões, nem faz muito barulho. E que quem é bom no Xadrez é considerado muito inteligente e respeitado, pela maioria.

Porreiro, acho que já lhes consegui despertar a atenção. Vou-lhes mudar o pensamento outra vez. E Risco, conhecem? Então ainda agora lhes falei do Xadrês e agora falo-lhes deste jogo chato, em que vários já tiveram experiências, algumas horriveis em que os dados devastaram aquele ataque de 20 contra 1 que não podia correr mal. Em que os jogadores eliminados acabaram por adormecer no sofá enquanto o último a ser derrotado se debatia ainda ao fim de duas horas na sua base de Madagáscar. Mas é mais um anzol com isco que lhes atiro.

Então os jogos de tabuleiro é como o Risco com Esteróides! E passo-lhes a explicar que nestes jogos são orientados para a estratégia, em que têm de construir um país, ou gerir uma economia, infra-estuturas, um negócio, uma corrida. Que podem ter um tabuleiro mais parecido com o Risco do que com o Monopólio, com zonas que valem mais umas que outras, em que umas providenciam mais recursos mas são mais frágeis de manter, etc, e não se limitam a ser um rodopiar constantante, sempre na esperança que só os dados sejam capazes de nos favorecer. É a altura de lhes explicar o grafismo e o aspecto dos novos jogos de tabuleiro, algo que consegue sempre espicaçar algum interesse. Afinal os olhos sãoo primeiro sentido de quem ve um jogo de tabuleiro.

E Videojogos, já jogaram? A minha geração e a seguinte estão imersas neste tipo de diversão. Algures no tempo já olharam para um Warcraft, Age of Empires, Command and Conquer, Civilization, Sims, Railroad Tycoon. Se sim, já praticamente os apanhámos. Estes são os primos digitais dos jogos de tabuleiro actuais. Sid Meyer, Will Right, John Romero, Chris Sawyer, são nomes que podem soar familiares ao jogadores de Videojogos. Com jogos como SimCity, Doom, Quake ou Roller Coaster Tycoon. E aproveito para explicar-lhes que um autor de jogos de tabuleiro também pode ser reconhecido pelo seu nome, pelo que já fez.

A seguir não há como disparar com Blizzard, ID, Maxis… e com o reconhecimento que se lhes mostrar estes nomes acabar a salva com nomes como Rio Grande, Days Of Wonder, Fantasy Flight Games, Games Workshop. Se o nome das companhias de Videojogos são reconhecidas, consego fazer o salto para companhias de jogos de tabuleiro. É natural neste ponto da conversa que já aceitem que isto estava para vir. E também já não se espantam que lhes confesse que  existem nomes que acabam por ser imediatamente reconheciveis, bem como os jogos que geram um esse reconhecimento imediato: Settlers of Catan, Carcassonne, Puerto Rico, Dominion, Warhammer 40000, etc.

E é a altura de entrar nas confidências: Vocês sabem que muitos Videojogos também são Jogos de Tabuleiro? Nesta altura já estão rendidos a que existe um mundo para lá do que conhecem, e que não é para crianças, e em que existe diversidade, em que não se limitam a lançar dados, em que existem decisões, e em que por norma o melhor jogador vencerá quase sempre.

Infelizmente muita gente pensa que se os jogos de tabuleiro são um Hobby, então a imagem agarrada a esse Hobby é a de uns maluquinhos a lançar dados e, tal como no famoso video, a gritarem “Fireball!! Fireball!! Fireball!!” – googlem!! É típico lembrarem-se do vizinho da padeira que jogava Dungeons & Dragons, e que tinha sempre um olhar esgazeado. UI! E não se armem em snobs deixando deslizar a conversa para como os jogos actuais são bem melhores do que aqueles que eles jogavam à anos atrás, ou que os Videojogos, etc. É ver-lhes o brilho nos olhos a morrer.

A melhor defesa é um bom ataque. Com um par de jogos na bagageira do carro, é fácil demonstrar rapidamente a conversa que se acabou de ter. É deixa-los ver os componentes, as regras, explicar o essencial das mesmas, deixa-los ir para lá do sentido da visão – há quem só veja com os dedos!! Com sorte, e o tempo e a vontade espicaçada forem suficientes talvez se consiga coloca-los a jogar ali naquele momento, e aproveitar o embalo. Se com isto tudo eles gostarem, porreiro. Se não gostaram, foram uns quinze minutos bem passados em que não tive que estar a fingir importar-me com o actual campeonato de futebol, ou com a conversa do costume de que o chefe do gabinete da direita é um idiota, ou se este ano está mais frio que o ano passado.

 

 

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