Noutro dia vieram-me perguntar o que é que eu achava do P500 (Projecto 500) que várias companhias de wargames têm. Para além de dar a resposta pretendida, fiquei a pensar neste tema e como o mesmo é pouco divulgado e usado pelas terras lusas.

O P500, ao que sei, foi inventado pela GMT de forma a garantir que os custos de produção de um jogo estejam cobertos antes de se lançar na produção do mesmo, pela garantia dada por existirem um mínimo de 500 compradores interessados quando o mesmo for produzido. Pouco tempo depois, várias companhias seguiram-lhe o exemplo como é o caso da Multiman Publishing (MMP), Valley Games, e a Decision Games (aqui toma o nome de Pledge), entre outras.

Como é que este P500 funciona?
A companhia coloca um jogo na lista de jogos a produzir no futuro, não indicando datas de produção para o mesmo, mas tentando passar o máximo de informação do protótipo aos potenciais compradores, tenta explicar detalhadamente as mecânicas, apresenta sessões de jogo, coloca as regras disponíveis para descarregar, apresenta imagens do mapa, counters, cartas, etc. Ou seja, tenta cativar os potenciais compradores. A par disto, o autor do jogo anda a percorrer as convenções de jogos (isto normalmente só acontece nos EUA) com um protótipo do jogo, a demonstrá-lo aos potenciais interessados. A isto tudo junta-se o “diz que disse” de quem entra nestas sessões de demonstração, mais os relatórios de jogadores que já o testaram. O objectivo disto tudo é fazer com que um número de interessados acabe por pré-encomendar o jogo, sem pagar nada, podendo desistir a qualquer altura.

Quase só tenho visto wargames (com algumas excepções da GMT – lembro-me do Winds of Plunder, Leaping Lemmings e Dominant Species -, que são positivamente Eurogames) listados nos diversos P500, variando desde novos jogos, expansões, mas também novas edições de jogos que já esgotaram os stocks ou de jogos antigos que se aproveita para levarem uma limpeza de regras e um novo desenho gráfico (por exemplo: Blackbeard e Hannibal: Rome vs Carthage).

O número mágico de pré-encomendas é o 500, sendo actualizado no site da empresa o número de ordens já recebidas, criando aqui outra forma de comunicar aos interessados que passam a ser também estes a tentar que mais se lhes juntem de forma a que o jogo que estão à espera atinja o número mínimo de ordens para ser produzido. Actualmente a companhia aguarda que o número suba ainda mais um pouco antes de colocar o jogo no alinhamento de jogos a produzir durante o ano, e daí ser considerado mais realístico esperar que o número de pré-encomendas chegue a 700. No entanto a empresa compromete-se a produzir o jogo desde que o mínimo de 500 pré-ordens seja atingido. Só depois do jogo estar produzido e pronto a remeter aos compradores, é que estes o pagam, sempre com um desconto sobre o preço final (normalmente anda à roda dos 25~40%). O que as empresas ganham com isto é a certeza que assim que produzem o jogo têm logo uma quantidade de jogos vendidos, suficientes para cobrir os custos de produção de 1500 ou 2000 ou mais cópias.

Então não eram só 500?
Esse é o número mágico que garante a um jogo um slot na linha de produção, mas quando vai para a produção, são logo feitos 4 a 5 vezes mais desse número, uma vez que a garantia de compra dos 500 exemplares garante a viabilidade económica de toda a produção. Ou seja, tudo quanto seja vendido a mais é lucro para a empresa, fugindo esta aos eventuais flops do mercado.

Para nós aqui em Portugal que vantagens e desvantagens temos em comprar jogos neste sistema, em que nos comprometemos a comprar um jogo sem nunca antes lhe termos posto a vista em cima, baseados apenas nos relatos de quem experimentou o protótipo, em meia dúzia de imagens, e nas regras dos mesmos?
Já comprei jogos neste sistema (principalmente na GMT, mas também na MMP e na Valley Games) e considero extremamente vantajoso o sistema de P500, não sendo o desconto directo que se tem no preço, o principal. Este fica um bocadinho abaixo de esperar que o jogo apareça disponivel na Europa, mas a longo termo fica ainda mais barato por causa das campanhas de descontos a 50% para participantes no P500 que regularmente a GMT (e outras) faz, e aí é que lucro bastante, nem que seja a comprar jogos a metade do preço para depois os meter nas MathTrades (um Europe Engulfed que custa 99USD posso comprá-lo por 50USD, isto dá-me um potencial de trocas fenomenal). Ultimamente não me tem batido na alfândega quando são só 1 ou 2 jogos, mas aqui, é a lotaria como se sabe. Se bater na alfândega neste momento ando a pagar +23% de IVA sobre o valor do jogo com portes + ~7EUR despesas de desalfandegamento (este último valor é fixo não interessa o número de jogos que vêm no caixote).

Somando a isto o facto de estar a contribuir para que seja produzido um jogo a que eu dou o meu aval, só posso dizer mesmo bem do P500, e recomendo vivamente. Às vezes dependendo dos jogos, estes podem estar em P500 durante anos, antes de virem a ser produzidos e podemos acabar por perder o interesse no mesmo, mas como em qualquer momento se pode desistir, não se perde mesmo nada. De todos os jogos que já mandei vir, até agora só tive um que efectivamente não correspondeu às minhas expectativas, o que em mais de uma vintena de títulos considero uma média excelente. Mesmo este título confesso que a culpa foi minha, uma vez que não pesquisei o suficiente sobre o mesmo, pois de certeza teria descoberto antes de o pagar que não era um jogo que eu viesse a gostar.

Mas como estar a par do que está para sair e do que entrou no P500?
As companhias emitem regularmente newsletters com as novidades, bem como o que está para ser editado. E no BGG (incontornável como sempre) existem vários utilizadores que disponibilizam mensalmente listagens de jogos das diversas empresas.

Artigo publicado originalmente no TuJogas